Traços de cultura e fé na Semana Santa

Traços de cultura e fé na Semana Santa

legenda: Celebrações marcaram originalmente a cultura avareense arraigada pela tradição católica

Foto Fonte: Arquivo Gesiel Jr

Gesiel Júnior

Ricas em símbolos, cores litúrgicas e manifestações populares, as celebrações da Semana Santa marcaram originalmente a cultura avareense arraigada pela tradição católica.

Perdem-se nas brumas do tempo e no passado das memórias, as profundas expressões de fé e religiosidade dos antigos moradores do Rio Novo, que ganhavam especial relevo durante os rituais da Quaresma, Semana Santa e Páscoa.

A propósito, na virada para o século vinte, em 1890, o cronista Jango Pires faz registro de como era bem organizada a procissão da Sexta-feira da Paixão.

Seguida por uma multidão, nessa época guiava a Paróquia de Nossa Senhora das Dores o padre Elisiário Paulino Bueno.

“À frente vinha o centurião romano com a matraca. A seguir, José de Arimatéia e Nicodemos com sua escadinha. Depois, Isaac com o feixinho de lenha para seu sacrifício, seu pai Abraão com a espada laçada por uma fita segura pelo anjo Gabriel, São João Evangelista, as três Marias e Verônica”, relata.

Para esses papéis eram escolhidas belas moças que conservavam grandes cabeleiras. Na seqüência, o esquife de Cristo morto era conduzido debaixo do pálio guardado por seis soldados romanos, todos vestidos com a indumentária própria da época. Carregavam a imagem “homens embuçados de branco”, descreve Jango.

Também alguns padres participavam do cortejo acompanhados por um coro de mulheres, algumas coristas vindas de Sorocaba, parentes do maestro João Batista Itagyba.

Engrossavam a turba os integrantes das Irmandades de São Benedito, de Nossa Senhora das Dores e do Santíssimo Sacramento, todas representadas por seus tocheiros e acompanhadas pela Banda Itagyba. A corporação executava, nas esquinas, marchas fúnebres para comoção dos fiéis.

A chamada Procissão do Senhor Morto saía da igreja matriz pontualmente às 8 horas da noite. O percurso incluía as empoeiradas ruas centrais. Para estas solenidades compareciam três, às vezes até quatro padres de São Paulo para ajudar nos ofícios, dentre os quais, um orador sacro encarregado de pronunciar o Sermão das Sete Palavras.

“Estas festas ficavam caríssimas – observa Jango -, mas o comércio concorria com boa vontade não entrando em conta os serviços do padre Elisiário. Ele era organizador”.

Emocionado, Jango Pires conclui: “A Semana Santa era a mais perfeita. Se não era completa, foi a mais completa a que assistimos. Era uma semana cheia de domingo a domingo. Era tão perfeita que tocava no âmago e dava a impressão de que a atmosfera estava pesada, os dias se tornavam singulares, respeitosos. O traje dos fiéis, quase em geral, era preto. Todo mundo sisudo, de feição agoniada até a Aleluia”.

 

O Judas de Nhá Inocência

 

Semana Santa de 1885. Muito beata, Nhá Inocência, uma das pioneiras do Rio Novo, fez voto de confeccionar um Judas para colocar em frente de sua casa, localizada na Travessa da Liberdade, nº30 (hoje, Rua Rio de Janeiro). Os seus bonecos davam surpresas anualmente. Numa das vezes ela escondeu dentro uma caixa de vespas.

Naquele tempo os rapazes aprontavam nas madrugadas de Sexta-feira Santa para o Sábado de Aleluia. “Ninguém dormia nessas noites. As pessoas precisavam ficar vigiando para que frangos e cabritos não fossem furtados de seus quintais”, lembra Jango Pires.

A garotada se divertia esperando para espatifar o Judas de Nhá Inocência. Num ano, porém, eles é que assustaram a velhinha fazendo um boneco que tinha em sua cabeça um gato morto e com um cartão pendurado: “Cuidado que não façam a vancê, o que fizeram pra mim”.

 

 

Quatro lobisomens?

 

Abril de 1898. Um episódio inusitado em plena Semana Santa movimentou a antiga Avaré. Boato dava conta de que a polícia prendera na cadeia um lobisomem.

Os comentários crescem e logo já não era mais um só, mas dois lobisomens juntos. As horas passam e então já são quatro os lobisomens detidos. O alarme chega aos ouvidos do juiz de Direito, quando os arredores da velha cadeia estão tomados por curiosos.

O magistrado apura o estranho ocorrido. O delegado lhe abre a cela e tudo vem às claras. “Era a preta Joaquina com três bonecas de pano. A mulher havia sido escrava de dona Ana Tomás. O delegado a recolhera atendendo ao pedido do vigário, padre Bicudo, pois o sacerdote pediu não queria a negra interrompendo as celebrações da Semana Santa, pois “como de costume, ela incomodava fazendo hilariedades com seus gestos e bobices”, revelou Jango Pires.

 

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Do livro ‘Avaré em memória viva’, vol. I, de Gesiel Júnior, Editora Gril, 2010.

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