Relatos das origens do transporte automotivo em Avaré

Relatos das origens do transporte automotivo em Avaré

legenda: A história do transporte sobre rodas no Rio Novo remonta ao ano de 1886

Fonte da Foto: Arquivo Gesil Júnior

* Gesiel Júnior


 

A história do transporte sobre rodas no Rio Novo remonta ao ano de 1886, quando a pacata vila teve “um aspecto novo, pitoresco, de grande curiosidade e muito movimento nas casas, crianças nas ruas, velhas nas janelas, negras nos portões, todos querendo ver o que havia acontecido”, conforme registrou Jango Pires.

E o próprio cronista encara a novidade como sinal de progresso: “Nada mais que o Sr. Francisco Dias Moreira – o Chico Boava – mostrando aos amigos a primeira carroça puxada por um burro branco chamado ‘Ronda’”.
Um quarto de século depois, em 1911, trafega por Avaré o primeiro automóvel vindo de São Paulo trazendo o cafeicultor Rodolpho Nogueira da Rocha Miranda. Dono da Fazenda Anápolis, ele havia sido ministro da Agricultura, Indústria e Comércio do governo Nilo Peçanha e, anos depois, elegeu-se vereador no município e presidiu a Câmara. Não há registro, porém, de qual era a marca do seu veículo.

No ano seguinte, outro rico fazendeiro, o advogado João Coutinho de Lima viajou de carro próprio da Capital para a sua propriedade, a Fazenda São José do Letreiro, situada nas terras do Barreiro (atual Arandu).

Desta vez Jango anotou o fabricante: era um carro vermelho da Fiat SpA. Fiat, a propósito, é um acrônimo da Fabbrica Italiana Automobili Torino (Fábrica Italiana de Automóveis de Turim) fundada em 1899 por um grupo de investidores liderado por Giovanni Agnelli. “O veículo foi alvo de admiração e exame minucioso em apalpadelas”, revelou.

O CHAUFFER DA WILLYS - Na época, os motoristas eram tratados pelo nome francês de “chauffeur”. Eles usavam capas, óculos de aviadores e luvas. Chamava-se Rodrigo o primeiro chofer contratado para guiar pelas poeirentas ruas de Avaré. Ele era pago para conduzir um Willys Overland, adquirido por Dico Mercadante.

Sensação da época, esse veículo automotivo recebeu o apelido de “Peixe Frito”. Importado dos Estados Unidos, da Standard Wheel Company, uma fábrica de automóveis de um e de dois cilindros criada em 1902, essa montadora foi transferida para Indianápolis e rebatizada como Willys-Overland Co., quando lançou esse carro pequeno com motor de quatro cilindros que obteve boas vendas no mercado.

“Deu muito o quê ver. Aos domingos e dias santos era descida a capota desse carro e o pessoal da cidade e da roça passeava dando voltas pelas Rua Rio Grande do Sul e Espírito Santo e de lá até Pernambuco e São Paulo, subindo no ponto de partida”, descreveu o cronista.
Um giro pelo centro velho custava 5$000 por pessoa. A procura era grande. Ao se cruzarem, os roceiros trocavam cumprimentos dando barretadas com o chapéu para serem vistos dentro do automóvel.

“Quando o pessoal da roça se encontrava, um logo fazia a pergunta: - Já viu a máquina do Dico? O outro respondia: - Ah, já andei nela. Paguei ‘cincão’ por vórta. É caro mais é bão” – relatou Jango com bom humor.

Fazendo muito barulho, os carros antigos andavam sempre com o escapamento aberto. Soltavam uma fumaceira negra e mau-cheirosa. Dotados de magneto, enguiçavam com freqüência.

Um passeio pelas ruas esburacadas, na velocidade de trinta quilômetros horários, era uma aventura alucinante. A molecada corria atrás das máquinas barulhentas, enquanto os moradores saíam às portas e janelas, curiosos, espantados com aquela parafernália ambulante.

Outro que figura entre os primeiros donos de automóveis de aluguel na cidade é José Alves da Rocha. Adquiriu na Capital um Ford “colher”, tipo T, ao qual batizou de “Catarina”. Segundo Jango Pires, o nome deu sorte e o chofer não parava de fazer corridas. “Era Catarina pra cá e Catarina pra lá. Isso lhe rendeu bastante dinheiro”, contou.

UMA RÉGIA LIMOUSINE? – Ávido por lucrar com carro de aluguel, o alfaiate Marcos Guazzelli comprou por doze contos de réis, em São Paulo, uma luxuosa limousine Fiat, toda estofada de veludo e com telefone.

O veículo, segundo narrativa de Jango, teria servido ao rei Vittorio Emanuele, da Itália, que o teria dado de presente a um príncipe inglês. Este, por sua vez o ofereceu a um conde brasileiro.

“Dizem que foi o primeiro carro a entrar em São Paulo. Quando o mesmo já estava fora de uso, o nosso amigo Guazzelli ‘caiu’ na compra e o pôs na praça. Carro fechado, aí foi o erro”, apontou Jango Pires, lembrando que naquele tempo os passageiros faziam questão de serem vistos dentro do veículo, mesmo sob chuva.

Embora não se saiba se realmente a limousine pertenceu ao monarca italiano, o fato é que a máquina transportou alguns noivos, apesar de o seu motor emperrar e, para sair do lugar, ter que ser empurrada por moleques. Ficou tempo encostada no corredor da casa do alfaiate servindo de galinheiro até que ele ainda conseguiu vendê-la em Botucatu.


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*Do livro 'Avaré em memória viva', vol. II,
de Gesiel Júnior, Editora Gril, 2011

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