Os cemitérios de Avaré e da antiga Rio Novo

Os cemitérios de Avaré e da antiga Rio Novo

legenda: Imagens do velho e do atual cemitério

Foto Fonte: Gesiel Júnior

* Gesiel Júnior

A proximidade do feriado de Finados, 2 de novembro, motiva o resgate de notas interessantes a respeito dos cemitérios da antiga Vila do Rio Novo e da Estância de Avaré. Ao todo, foram três, incluindo a atual Necrópole Municipal.

O primeiro, erguido no quarteirão da Rua Mato Grosso, onde está o Lar São Vicente de Paulo, ocupava um retângulo de cerca de vinte por trinta braças, algo em torno de três mil metros quadrados. Tanto o major Vitoriano de Souza Rocha como o alferes Domiciano Santana tiveram ali as suas sepulturas, as quais estavam em ruínas no começo do século XX.

Notícia publicada há mais de 100 anos, pelo jornal “Tribuna de Avaré”, em novembro de 1909, informa que os “dois veneráveis fundadores da Capela do Major” – primitivo nome da cidade - tiveram seus restos mortais exumados e encerrados em uma urna apropriada e colocada no saguão da Casa Pia São Vicente de Paulo, sob a escadaria da entrada principal do prédio.

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Crise

O segundo “campo santo” do Rio Novo surgiu em 1879 e recebeu o nome de Cemitério Nossa Senhora das Dores. Ficava nas imediações do Bairro Alto, no início do Jardim Europa. Segundo o cronista Jango Pires, media 35 braças em quadra e sua construção custou um conto e quinhentos mil réis. Sua administração esteve confiada à Irmandade de Nossa Senhora das Dores, como era comum no regime imperial.

Um incidente, em 1891, já na República, indispôs o pároco da época, padre Antônio Gomes Xavier com a Intendência Municipal. Tudo porque a lei do registro civil, de 1885, determinava que os sepultamentos fossem realizados com a emissão de Guia do Oficial do Registro.

O padre protesta e se recusa a obedecer a norma, alegando que a mesma fere o princípio da liberdade religiosa. A Intendência reage e nomeia um zelador para fiscalizar os sepultamentos. E mais: mesmo sendo propriedade da Igreja, coloca um enorme cadeado no portão do cemitério para que no lugar só fossem feitos enterros com a documentação exigida.

O caso, levado para mediação do governador do Estado, vira escândalo e ganha repercussão na imprensa nacional. Por fim, o pároco cede e a lei passa a ser cumprida.

No ano de 1946, em ruínas, o lugar é assim descrito por Jango Pires: “Este cemitério está em completo abandono e lá, em esquecimento, os restos mortais dos que lutaram pela grandeza e progresso de Avaré! Deveria ser conservado como uma relíquia de um passado não muito distante e serviria para os pósteros como página viva de um povo trabalhador. Transformá-lo em um recanto florido, o Jardim da Saudade, é um dever”.

Ninguém, entretanto, acolheu a sugestão do cronista e hoje não há mais vestígios desse antigo sepulcrário.

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Fonte histórica

No ano de 1902, a Câmara de Vereadores aprova a construção da atual Necrópole Municipal, cuja área original era de 75 braças, o que corresponde a 27.225 metros quadrados. Na época, a obra ficava a um quilômetro do centro da cidade. Assinou a planta o engenheiro Antônio Felix de Faria Albernaz e sua execução foi confiada ao construtor italiano Germano Mariutti.

Inaugurado em 1º de abril de 1904, o Cemitério atual teve como primeiro zelador um músico: o maestro João Baptista Itagyba. À família do intendente Antônio Júlio de Castro Guimarães, que o concluiu, pertence a primeira sepultura perpétua.

Ampliado por várias vezes, o Cemitério atual não tem mais espaço para novas sepulturas. Possui mais de seis mil jazigos onde estão sepultadas aproximadamente 70 mil pessoas, desde importantes personalidades do mundo político até indigentes.

Com o crescimento da cidade e o conseqüente aumento populacional o problema existe e se agravou nos últimos anos. Houve até, por parte da iniciativa privada, o lançamento de projeto para construir um cemitério-jardim, que não vingou.

Importante frisar que os cemitérios podem nos dar valiosas informações, se vistos como fonte para preservação da memória familiar e coletiva, de estudo das crenças religiosas e também de conhecimento sobre a formação étnica ou ainda para estudo da genealogia.

Além do mais, nas sepulturas podem ser observadas formas de expressão do gosto artístico, da ideologia política e até mesmo de preservação do patrimônio histórico.

Ir ao Cemitério de Avaré, portanto, além do caráter religioso, dá ao visitante informações curiosas pela análise de epitáfios, de fotos tumulares, de simbologias contidas nas obras funerárias e da expressão artística dos monumentos e mausoléus e da diversidade dos materiais neles empregados como o mármore, o granito, o ferro fundido e o bronze.
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Do livro “Avaré em memória viva”, volume I, de Gesiel Júnior, Editora Gril, 2010

 

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