Corpus Christi: expressão de fé e arte popular

Corpus Christi: expressão de fé e arte popular

legenda: Em Avaré, o Corpus Christi começou a ser festejado no mês de junho de 1965

Foto Fonte: Arquivo Gesiel Jr

*Gesiel Júnior

Entre meados dos anos 1960 e 1970, o feriado de Corpus Christi (Corpo de Cristo) em Avaré motivava manifestações de arte popular com a confecção de tapetes da rua. Grupos de voluntários, na maior parte, estudantes, costumavam fazer estes enfeites, cujos preparativos eram iniciados dias antes da solenidade e muitos varavam a noite trabalhando.

Diversos tipos de materiais como serragem colorida, borra de café, farinha, areia e alguns pequenos acessórios, como tampinhas de garrafas, flores e folhas, foram empregados para a montagem de tapetes ornamentais pelas ruas com dizeres e figuras relativas a temas religiosos.

Em Avaré, o Corpus Christi começou a ser festejado no mês de junho de 1965. Foi quando a cidade viu a criatividade litúrgica do padre Arnaldo Beltrami, jovem coadjutor da paróquia Nossa Senhora das Dores. Cooperava com a iniciativa o padre Paulo Goecke, sacerdote alemão, pároco da igreja São Benedito.

Naquele ano, pela primeira vez as ruas centrais de Avaré foram “magnificamente enfeitadas com tapetes e motivos sacros”, conforme relatou empolgado o monsenhor Celso Ferreira, “para a passagem do Santíssimo Sacramento” conduzido numa custódia, receptáculo de prata em que a hóstia consagrada é posta para adoração dos fiéis.

“Padre Arnaldo, auxiliado pela professora Castorina Cavalheiro Rodrigues, suas alunas, as Irmãzinhas da Imaculada Conceição e os moradores por onde ia passar o sagrado cortejo, foram os autores e realizadores desse acontecimento fora do comum”, registrou o inesquecível pároco.

Proposta Social

Surgida na idade Média, a celebração de Corpus Christi consta de uma missa, procissão e adoração eucarística.  Para se entender melhor, na liturgia católica, quarenta dias após o domingo de Páscoa é a quinta-feira da Ascensão de Cristo. Dez dias depois é o Domingo de Pentecostes. O domingo seguinte é o da Santíssima Trindade, e na quinta-feira posterior acontece a festa de Corpus Christi.

No Brasil, essa celebração chegou com os colonizadores e portugueses e espanhóis. Teve, por sinal, uma conotação político-religiosa na época colonial. É que dias antes da procissão, as câmaras municipais exigiam que as casas de moradia e de comércio fossem enfeitadas com folhas e flores. Participavam membros de todas as classes, incluindo os escravos, os leigos das ordens terceiras e os militares. Durante muito tempo, o entrosamento do povo com o governo, e vice-versa, foi praticamente completo. Um exemplo que comprova esse fato ocorreu quando dom João VI acompanhou a primeira procissão de Corpus Christi, realizada no rio de janeiro, em 16 de junho de 1808.

Por outro lado, dois séculos depois, em 2009, a proposta da Prefeitura de Avaré, com apoio da comunidade católica, é reavivar o Corpus Christi no calendário de eventos da nossa Estância Turística por meio de manifestações de arte e religiosidade.

O ideal, entretanto, é que além das ornamentações nas ruas centrais, que começam ainda pela madrugada, nas proximidades das duas igrejas centrais uma ampla estrutura seja montada para receber os visitantes, com praça de alimentação explorada por entidades filantrópicas, passeio turístico, feira de artesanato, área de recreação, exposição e espaço para artistas e músicos.

Além do mais, a festa religiosa é também uma oportunidade para a prática da solidariedade. Neste dia, os fiéis e turistas podem ser incentivados a fazer doações, depois revertidas para famílias necessitadas ou obras assistenciais. Desta forma, o evento assume uma dimensão social ultrapassando o seu caráter religioso e cultural.

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(*) Cronista e pesquisador, é autor de 32 livros sobre a história de Avaré e região

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