Avaré e suas bandas musicais

Avaré e suas bandas musicais

legenda: Em Avaré, a primeira banda surgiu há 130 anos

Fonte da Foto: Arquivo Gesiel Jr.

Gesiel Júnior

Difundida na Europa, a banda de música parece ter suas origens na França. Fruto de uma tradição que vem dos tempos remotos do Brasil Colônia, as bandas são um rico celeiro de maestros, músicos e gêneros musicais.

Ao longo de três séculos de sua história, o Brasil inteiro parava para ver a banda passar, trazendo alegria e música para todos. Criados por todo o país, esses conjuntos musicais se espalharam, tanto nas cidades, quanto em vilas, povoados e até em sítios e fazendas.

Mas as bandas se popularizaram com a chegada de Dom João VI há pouco mais de 200 anos, em 1808. O rei trouxe consigo uma banda de música portuguesa e durante a estada da família real, no Rio de Janeiro, foram realizados vários concertos.

 Tendo herdado a disciplina e a organização das bandas militares, as bandas civis tornaram-se um veículo de entretenimento coletivo, atuando em movimentos políticos, acontecimentos religiosos, cívicos e sociais.

Em Avaré, a primeira banda surgiu há 130 anos. Assim o cronista Jango Pires narra o episódio:

“1879 – O dia 4 de março assinala a passeata pelas ruas do Rio Novo da primeira Banda de Música – A União dos Artistas – sob a regência do maestro Bartolomeu de tal (Nhosinho Músico). Dela faziam parte pessoas de grande projeção social: farmacêutico, o advogado Ladislau Monteiro, o professor Luiz Custódio Lopes e um vereador”.

Outros grupos surgiram nos anos seguintes. Os italianos, em 1898, criaram a Banda “14 de Março” em homenagem a Humberto I, monarca da Itália. Regida por Primo Carniti, integravam-na gente de sobrenomes importantes como Montebugnoli, Lutti, Mercadante, Padredi, Baldassari, Orsini, Brandi, Poli, Paschoal, Durço, Verpa, Donateli, Lali e Pelegrini.

Em 1901, essa corporação foi reorganizada e recebeu o novo nome de Sociedade Musical Giuseppe Verdi. Para manter as retretas dominicais, tômbolas eram promovidas oferecendo o prêmio de cinco libras esterlinas.

Graças aos esforços do maestro Sebastião Filadelfo Marques, aparece em 1906 a Banda Musical São Benedito, integrada por jovens da época, dentre os quais o futuro jornalista e escritor Gabriel Marques, filho do regente.

Os acordes do maestro Itagyba

Organizada em 1892 pelo seu fundador, a Banda Musical Itagyba marca época. Conduzida pela batuta do maestro João Batista Itagyba, que também rege o coro da velha matriz de Nossa Senhora das Dores, essa corporação, segundo Jango Pires, “deixou viva lembrança nos avareenses que a conheceram”.

Nos primeiros tempos os seus músicos usam uniformes de tipo militar francês. “Vestiam-se com apuro e marchavam com garbo”, enfatiza, informando que eles depois trocaram a indumentária por trajes civis, “sem perderem, contudo, as qualidades que serviam para atrair as amizades do povo”.

A célebre Banda Itagyba teve entre seus componentes figuras de destaque como Joaquim Thiago dos Santos (mais tarde, sacerdote católico) e o porta-estandarte José Balbino Negrão, pai do advogado e memorialista Joaquim “Tininho” Negrão.

Antigamente, comuns eram as chamadas retretas, como se chamavam as exibições das bandas nas praças. Em Avaré, as retretas do Largo São João, concorridas, reuniam autoridades, personalidades e muitos populares.

Os meninos músicos do Padre Celso

Natal de 1948. Durante a procissão das crianças, após a missa na Matriz, apresenta-se em público pela primeira vez a Banda de Música do Orfanato São Nicolau. Para formá-la, o padre Celso Diogo Ferreira, pároco empreendedor, adquiriu instrumentos usados de uma fanfarra extinta de Botucatu.

Para instruir os meninos ele conta com a colaboração dos músicos valorosos como Astrogildo Pontes, Antonio Prestes, Álvaro Filgueiras e dos irmãos Santili e Paulo de Paschoal.

Com 40 membros, a bandinha é o atrativo da cidade. No Dia da Pátria, em 1949, os pequenos instrumentistas interpretam no Largo São João a marcha “Viva o Brasil”. Assim a fama da Banda Padre Celso logo se espalha e em 1955 a corporação se apresenta na Rádio Nacional, no Rio de Janeiro. Também faz memoráveis exibições em Piracicaba e na Basílica de Aparecida.

Sob a regência do maestro Filgueiras, nos anos 60, alguns dos membros da Banda Monsenhor Celso se profissionalizam e hoje são músicos de carreira. Após 20 anos de formação, o grupo infelizmente acaba com a saída do seu criador, mas a saudade ficou.

Banda Marcial, inesquecível

Setembro de 1974. Outra corporação musical brilha na cidade: a Banda Marcial de Avaré, integrada por alunos do Instituto de Ensino “Sedes Sapientiae”. Apoiada pela escola e pela Prefeitura, o grupo de músicos instrumentais obtem da Secretaria Estadual de Turismo a doação de vários instrumentos.

Diferente de outras bandas, a Marcial apresenta-se ao ar-livre e incorpora movimentos corporais - geralmente algum tipo de marcha - à sua apresentação musical. Além disso, utiliza duas classes de instrumentos musicais: os metais, e a percussão. Com isso sua música inclui um ritmo forte, adequado à marcha.

Enquanto durou, a Banda Marcial do “Sedes” sagrou-se campeã paulista e figurou entre as quatro melhores do Brasil num concurso nacional do gênero. Em setembro de 1974, o jornal “O Avaré” assim a descreve com realce:

“Desfilando às 9 horas da manhã e aplaudida por milhares de pessoas postadas ao longo do trajeto, a nossa Banda Marcial trouxe para as ruas de Avaré a sua mensagem de saudação; uma centena de figuras no vistoso fardamento; o porte varonil e a musicalidade. Sonhado pelo professor Azurara, plantado por padre Salústio, continuado por monsenhor Celso e dinamizado pelo professor Celso Ferreira, por João Baptista de Andrade e uma plêiade de jovens atuais diretores, o Instituto de Ensino ‘Sedes Sapientiae’ jamais se apartou da tradição avareense. Num atestado do mais sentido amor e do mais alto civismo, a nossa Banda Marcial reedita a façanha maestrina dos sonhados tempos da Banda Itagyba e reverencia maestros como Amílcar Montebugnoli, Benedito Pontes, Álvaro Filgueiras e tantos outros”.

Celeiro de talentos

No Brasil atualmente existem cerca de 1.500 bandas. Cada corporação é um centro gerador de novos gêneros musicais e de um vasto repertório de chorinhos, marchas e dobrados.

Das manifestações da cultura nacional essa é uma das mais populares, pois onde havia um coreto, existia uma bandinha, orgulho da cidade.

Como instituição, a banda de música transcende o aspecto músico-cultural, para se revestir do aspecto social. Por meio delas muitos talentos se revelam, melhores cidadãos se formam e, não raro, dentre os seus instrumentistas, surgem lideranças importantes para a comunidade.

Só para citar dois maestros por excelência: o genial Carlos Gomes (1836-1896), nosso mais importante compositor de ópera, fez parte de uma banda em Campinas, sua terra natal. E o internacionalmente conhecido Eleazar de Carvalho (1912-1996), que por muitos anos regeu a Orquestra Sinfônica Brasileira, tocava baixo-tuba na banda dos Fuzileiros Navais.

Hoje, contudo, as bandas estão desaparecendo. Com o desenvolvimento da cultura de massa essa rica e alegre tradição brasileira corre sério risco de extinção.

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Do livro “Avaré em memória viva”, vol. IV, de Gesiel Júnior, Editora Gril, 2010

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