Aspectos da tradição junina na cultura avareense

Aspectos da tradição junina na cultura avareense

legenda: Das antigas rezas de Santo Antonio ao Arraiá do Nhô Musa

Foto Fonte: Gesiel Júnior

* Gesiel Júnior

Quentão, pipoca, danças, brasas, fogueira e muitas brincadeiras. O mês de junho na região de Avaré é repleto de eventos para quem deseja apreciar uma verdadeira festa “caipira”.

Os festejos ainda atraem muita gente e, mesmo com o passar do tempo, isso se consolida como força da tradição paulista por simbolizar expressões típicas da cultura brasileira.

“Esse evento mistura costumes de outros países, tudo adaptado ao estilo do nosso povo”, ensina a pesquisadora avareense Leila Gasperazzo Ignatius Grassi, professora de Educação, Arte e História da Cultura da Universidade do Sagrado Coração (USC). Segundo ela, a festa junina é como o povo brasileiro: uma miscigenação de culturas.

ONTEM – Na antiga Vila do Rio Novo as primeiras comemorações juninas ocorreram em 1885. Nessa época, revelou Jango Pires, eram realizadas festas particulares que tomavam caráter público e dispensavam convites.

A mais interessante, conforme narrativa do memorialista, era a festa de Santo Antonio feita por Nhá Mina e por Paulino Sotero dos Prazeres, taipeiro conhecido como Paulinão, no terreiro da casa da família na Rua Maranhão, esquina com a Rua Pará.

“Era erguida ali uma caieira grande de lenha no meio da rua e soltavam foguetes de espaço em espaço”, anotou Jango, lembrando que “ao escurecer era rezado o terço pelo capelão Mestrinho, ajudado pelo seu filho Anacleto e o ato terminava com uma ladainha em ‘latinório’ muito aportuguesado e com o convite para beijar o santo”.

Finda a cerimônia Nhá Mina distribuía o café com açúcar mascavo. O leilão começava e a Banda Itagiba tocava gratuitamente valsas chorosas. Quando a caieira ficava em brasas, Jango conta ter visto devotos tirarem os calçados e passarem sobre elas, indo e voltando por três vezes sem nenhum incidente. “Era como se estivessem pisando em carvão”, comentou.

HOJE - Mais de cem anos depois, em junho de 1993, na gestão de Miguel Paulucci, a Prefeitura inovou ao criar o chamado 1º Grande Arraial de Avaré, festa cultural projetada para envolver escolas e instituições assistenciais.

O evento, rebatizado de “Arraiá do Nhô Musa” para homenagear o radialista e trovador João Francisco Soares (1900-1991), teve suas primeiras edições realizadas no recinto da Emapa, onde barracas eram montadas com oferta de produtos típicos. Na programação, apresentações musicais e o “quadrilhão” dançado por grupos de universitários.

Atualmente a festa é coordenada pela Secretaria Municipal da Cultura na Concha Acústica em três noites, quando o público avareense prestigia as barracas juninas, o terço cantado e as atrações musicais.

Festa e religião

Mescla de tradição popular e religiosidade, os festejos de junho surgiram antes da era cristã no Hemisfério Norte para celebrar o solstício de verão. Como tal fenômeno ocorre lá nessa época, alguns povos realizavam rituais de invocação de fertilidade do solo, bom plantio e boas colheitas com fartura de comida e danças.

Embora considerados pagãos, a Igreja Católica acabou incorporando esses eventos às suas comemorações, já que na mesma época festejavam os dias de Santo Antonio, São Pedro e São João Batista.

“Os costumes vão mudando de geração em geração, mas a essência continua e a tradição se estende de pai para filho”, observa Leila Grassi, doutora em Educação.

Compartilha dessa opinião dom José Moreira de Melo, bispo de Itapeva, para quem as festas juninas hoje têm muito mais tradição cultural do que religiosa. Para ele, as celebrações dos santos Antônio, João, Pedro e Paulo já fazem parte das raízes da cultura nacional, assim como a hospitalidade, a alegria e o desejo de convivência do povo brasileiro.

“Cada um celebra as festas dos santos com o grau de consciência que possui em relação a sua fé”, diz o bispo. Ele relata que o costume da fogueira se explica numa história envolvendo Isabel, mãe de João Batista, e Maria, mãe de Jesus.

“Como as duas eram primas e estavam grávidas na mesma época, combinaram que na casa em que primeiro nascesse uma criança, uma fogueira bem grande deveria ser construída, para avisar do nascimento. As casas eram um pouco longe uma da outra”, conta.

Quando João Batista nasceu, seu pai Zacarias fez o combinado para avisar Maria e José de que Isabel havia dado à luz. Daí vem o costume de celebrar o dia de São João com as fogueiras.

No Brasil, os festejos juninos começaram a ganhar características próprias, no processo de catequização dos índios, com as tradições locais misturadas aos costumes dos portugueses.

Por coincidência, os indígenas também celebravam a preparação do solo para o novo plantio na mesma época das festas juninas, que é também período de seca em muitas regiões.

Com efeito, ao longo do período colonial, portugueses, índios, negros e outros imigrantes participavam das celebrações religiosas, as quais adotaram as tradições, cores, comidas e danças típicas, até ganhar os contornos das festas atuais, mas sem que o povo perdesse sua devoção aos santos de junho.

*Gesiel Junior é cronista, pesquisador e historiador

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